A carga de data centers considerada na Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN) pode passar de 315 MWmed em 2026 para 5.653 MWmed em 2030, um crescimento de quase 18 vezes em quatro anos. Os números constam de levantamento do Energy Summit com base em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e da Brasscom.

A projeção faz parte da 2ª Revisão Quadrimestral das Previsões de Carga do Planejamento Anual da Operação Energética (PLAN) 2026-2030, divulgada em agosto por ONS, EPE e CCEE. Em comparação com a revisão anterior, a estimativa para 2030 aumentou em 63,5%, passando de 3.457 MWmed para 5.653 MWmed. A curva atualizada prevê 942 MWmed em 2027, 2.390 MWmed em 2028 e 3.934 MWmed em 2029.

A base do planejamento contabiliza 27 contratos de conexão assinados e 22 pareceres de acesso favoráveis. Pela metodologia do PLAN, entram 100% da carga dos projetos com contrato e 50% dos que têm parecer favorável, enquanto os pedidos em andamento ficam de fora. No processo aberto no início de 2026 para novos grandes consumidores, o ONS aceitou 43 solicitações de acesso, das quais 38 eram de data centers, totalizando cerca de 7.040 MW.

Segundo o Energy Summit, o cenário de carga que embasou o PLAN foi concebido antes do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (ReData) ser considerado. A entidade avalia que a entrada em vigor do regime pode estimular projetos adicionais, desde que esses empreendimentos efetivamente avancem e se conectem à rede.

Em um recorte mais amplo, estudo da Brasscom e da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), que inclui instalações ligadas às redes de distribuição, projeta que a capacidade instalada de TI passe de 843,1 MW em 2024 para 2.192 MW em 2029. O consumo elétrico do setor subiria de 11,3 TWh para 27,3 TWh no período, e a participação dos data centers no consumo nacional passaria de 1,7% para 3,6%. Devido a diferenças de metodologia e de horizonte, os números do PLAN e do estudo setorial não são diretamente comparáveis.

Para Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, a matriz energética predominantemente renovável é um diferencial do Brasil em relação aos Estados Unidos e à Europa diante da demanda por energia impulsionada pela Inteligência Artificial. Ele afirma, no entanto, que o desafio está menos na geração e mais na capacidade de transmitir essa energia até os pontos de consumo e na velocidade de conexão dos novos empreendimentos. Segundo o executivo, o texto do REDATA traz sinalizações importantes, mas será preciso acelerar a expansão da transmissão e as soluções de armazenamento.

O ReData, previsto no Projeto de Lei nº 278/2026, foi sancionado pelo presidente Lula em setembro. Além dos incentivos tributários, o texto exige o Water Usage Effectiveness (WUE), indicador que relaciona o uso de água ao consumo de energia, igual ou inferior a 0,05 litros por kWh, com aferição anual. A regulamentação ainda deverá definir qual consumo de energia servirá de base para o cálculo.

Com base em parâmetros da Brasscom e da ABDC, o Energy Summit estima que o parque instalado no país opere com WUE médio de cerca de 0,30 L/kWh, considerando o consumo elétrico total das instalações e a presença de unidades antigas com refrigeração em circuito aberto. Nesse critério, o teto do REDATA seria cerca de seis vezes mais exigente. A entidade ressalta que se trata de um cálculo próprio, não de um indicador oficial, e que a comparação terá de ser refeita caso a regulamentação adote outra base.

Dados da ANA e da Brasscom indicam que os data centers respondem por uma parcela pequena do uso consuntivo de água no país, de cerca de 0,006% do total acumulado entre 2022 e 2029. Parte disso se deve à adoção de sistemas de refrigeração em circuito fechado, nos quais a água circula repetidamente. A tecnologia já está presente em cerca de 80% do parque e deve atingir aproximadamente 90% em 2030.

Eduardo Menossi, cofundador e CEO do Grupo EBM, afirma que a evolução dos sistemas de climatização será decisiva para que novos projetos atendam aos parâmetros do ReData. Segundo ele, as GPUs usadas em cargas de IA geram calor em volume tal que não é mais possível depender apenas do resfriamento a ar, o que exige levar líquido até os processadores, com sistemas como o cold plate. O executivo diz que essa mudança levou a empresa a ampliar sua atuação para o fit-out, já que essa infraestrutura passa a estar diretamente ligada ao interior do data center.

Além do limite hídrico, o ReData condiciona os benefícios ao uso de energia renovável ou de baixa emissão, à oferta de pelo menos 10% da capacidade de processamento, armazenagem e tratamento de dados ao mercado interno e ao investimento mínimo de 2% do valor dos bens incentivados em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país.