O século da transformação digital não teria sido possível sem os data centers. Essas infraestruturas, que hoje representam aproximadamente 3% do consumo energético global, são as responsáveis por tornarem os dados uma parte essencial de nossas vidas. Mas como chegamos a esse nível tecnológico?
Para comemorar este 26 de março, Dia Internacional do Data Center, a DCD conversou com profissionais que participaram do desenvolvimento do setor de data centers desde o início dos anos 2000. A partir de uma série de entrevistas com especialistas de longa trajetória, vamos entender como essa indústria evoluiu em seus diferentes aspectos.
A evolução em design e construção – De data centers empresariais a instalações de hiperescala e IA
A área de design e construção de data centers passou por diferentes fases desde o começo dos anos 2000. Marcos Paraiso, Vice President of Sales and Business Development da MODULAR Data Centers, acompanhou essa transição e compartilhou a sua visão sobre como esse mercado passou dos modelos tradicionais e corporativos para operações em larga escala voltadas para a nuvem, chegando à era de estruturas voltadas para a inteligência artificial.
"A partir de 2007, com a adoção massiva da virtualização e o surgimento dos serviços de nuvem, iniciou-se uma tendência gradual de retração dos investimentos em data centers empresariais. Os últimos grandes investimentos nesse segmento ocorreram entre 2010 e 2014", lembra Marcos Paraiso.
A virtualização e o uso da nuvem pública foram grandes catalisadores dessa mudança, fazendo com que as empresas abandonassem grandes investimentos em data centers próprios e optassem por soluções de colocation.
"Precisamos construir instalações muito maiores, com capacidade significativamente superior e em prazos cada vez mais curtos. Essa é uma equação desafiadora, pois impõe múltiplos obstáculos simultaneamente. O aumento exponencial na escala das instalações traz desafios construtivos, de fornecimento de componentes e de evolução tecnológica", comenta Paraiso.
A eficiência energética, que antes era uma preocupação menor, se tornou uma prioridade à medida que os data centers se expandiram e a demanda por energia cresceu significativamente.
Paraiso alerta que "os métodos tradicionais chegaram ao seu limite" e ressalta que o setor "precisa de novas abordagens para continuar evoluindo". Confira a entrevista na íntegra.
Como a sustentabilidade se tornou prioritária nos data centers?
No começo do século XXI, a sustentabilidade não era uma preocupação central dos data centers. A conscientização global em torno das questões ambientais ainda estava em estágios iniciais, e as instalações ainda não demandavam um consumo energético tão significativo. Mas o cenário mudou:
"O foco e os esforços estavam voltados para a expansão dos negócios e a modernização da capacidade de processamento para atender à crescente demanda digital. No entanto, logo se percebeu o alto consumo de energia necessário para manter a operação dos data centers e, com isso, as emissões de carbono começaram a chamar a atenção, especialmente à medida que os data centers se multiplicavam e seu impacto ambiental se tornava mais evidente", afirma Adriana Rivera Cerecedo, sócia da GL&Ambiental e diretora-executiva daMEXDC.
Com o tempo, os data centers começaram a adotar tecnologias mais sustentáveis, como a virtualização, para reduzir o consumo de energia, e sistemas de resfriamento avançados, como resfriamento líquido e o free cooling. Além disso, a utilização de fontes de energia renováveis, como solar e eólica, se expandiu, contribuindo para a redução da dependência de combustíveis fósseis.
Nesta entrevista, Adriana Rivera Cerecedo relembra os principais fatos que marcaram a evolução da sustentabilidade como uma prioridade diante da evolução digital, destaca as principais tecnologias que permitiram um desenvolvimento mais equilibrado do setor e analisa a relevância da diversidade de fontes energéticas para o futuro dos data centers.
A descentralização do mundo digital com os edge data centers e a expansão das redes
O mercado de edge data centers tem evoluído à medida que as redes de conectividade, tanto terrestres quanto submarinas, acompanham a crescente demanda por latência ultrabaixa e alta capacidade. A expansão dos cabos submarinos de fibra óptica tem contribuído para reduzir significativamente a latência entre continentes e garantir uma maior eficiência na transmissão de dados.
No entanto, ainda há barreiras a serem superadas para permitir uma maior descentralização que viabilize o acesso às novas tecnologias: "o desenvolvimento da infraestrutura digital para IoT tem avançado, mas ainda enfrenta desafios que limitam a sua adoção em larga escala. Embora haja investimentos crescentes em conectividade e data centers, fatores como cobertura de rede, custos e regulação influenciam o ritmo dessa evolução", afirma Antonio Bob, CEO da Edgefy.
O 5G também é um fator que marcou esses avanços ao longo das últimas décadas. Na opinião de Antonio Bob, apesar dos desafios iniciais, a indústria tem conseguido evoluir para suportar essa tecnologia de forma eficiente e atender as demandas do edge.
Nesta entrevista, ele também explica por que os edge data centers não se desenvolveram no ritmo que era esperado e prevê grandes avanços com a IA para os próximos anos:
"A convergência entre edge computing, redes móveis e data centers está transformando a infraestrutura digital, tornando-a mais distribuída, inteligente e eficiente. Esse movimento permitirá a criação de novas aplicações e serviços que exigem latência ultrabaixa e conectividade contínua, preparando o terreno para a próxima geração de inovações tecnológicas. Estamos construindo uma grande rede neural que suportará tudo que a AI vai nos oferecer."
A exigência por aumento da densidade e eficiência energética ao longo do século
Nos últimos 25 anos, os sistemas de resfriamento e backup nos data centers passaram por uma evolução significativa, com inovações que ajudaram a lidar com a crescente densidade de servidores e as demandas por eficiência energética. Em sua entrevista, Rita Lourenço, Critical Power Sales Manager da Legrand na Península Ibérica, compara a realidade do início do século XXI com a atual:
"Nos primeiros anos de operação dos data centers, a densidade de servidores era muito menor, e os sistemas de arrefecimento eram relativamente simples, geralmente baseados em arrefecimento com ar condicionado tradicional. Contudo, com o aumento da densidade de servidores, causados pela evolução dos componentes de hardware, surgiram desafios significativos para manter as temperaturas ideais de operação sem aumentar excessivamente os custos e o consumo de energia", lembra Rita.
Com o tempo, os projetos de data centers passaram a incorporar soluções ecológicas e mais eficientes, como sistemas modulares de energia e monitoramento inteligente. A busca por eficiência energética continua sendo um motor fundamental de inovação, com o uso de energias limpas e tecnologias avançadas de resfriamento garantindo que os data centers atendam à demanda crescente por capacidade e aos requisitos de sustentabilidade e eficiência. Porém, segundo Rita Lourenço, o setor ainda tem importantes obstáculos pela frente:
"A adoção de fontes renováveis e a geração própria de energia pelos data centers evoluíram significativamente nos últimos anos, à medida que a sustentabilidade se tornou uma prioridade fundamental para a indústria. No entanto, apesar dos avanços, existem ainda desafios técnicos, econômicos e regulatórios que precisam ser superados para que a utilização de fontes limpas seja ainda mais ampliada."
A revolução do armazenamento flash e a derrocada do disco rígido
Nas últimas duas décadas, os data centers passaram por uma transformação significativa no armazenamento, impulsionada pelos fatores destacados na entrevista anterior: avanço da densidade dos racks e pela busca por eficiência energética. Nesse contexto, a substituição dos discos rígidos mecânicos por soluções All-Flash e SSDs permitiu otimizar o uso do espaço, reduzir o consumo de energia e aumentar o desempenho das aplicações.
"Uma das tecnologias-chave que transformaram a indústria é o armazenamento All-Flash, que melhorou radicalmente o desempenho, a confiabilidade e a eficiência energética dos data centers. Graças aos avanços na densidade do armazenamento em flash e à redução de custos, espera-se que os discos rígidos mecânicos (HDDs) sejam praticamente eliminados nos próximos anos", analisa Carmen Derlichan, SE Director EMEA South region da Pure Storage.
O crescimento do uso da nuvem levou a uma transformação profunda na infraestrutura dos data centers e levou as empresas a migraram de abordagens tradicionais de armazenamento on-premise para modelos mais flexíveis baseados na nuvem, provocando mudanças significativas na gestão de recursos de armazenamento e computação.
"Uma das principais lições da nuvem foi a demanda das empresas por flexibilidade e simplicidade. Isso levou à criação de modelos de consumo semelhantes à nuvem, como o STaaS, que permite que organizações acessem capacidades de armazenamento de forma flexível e sob demanda, sem a necessidade de grandes investimentos iniciais em hardware", comenta Carmen em um dos trechos de sua entrevista especial para o Dia Internacional do Data Center.
Mais controle e menos presença humana – O que mudou na gestão dos data centers?
Há 25 anos, a operação dos data centers enfrentava desafios como a falta de visibilidade sobre riscos, a ausência de planos claros de contingência e a dependência excessiva do conhecimento individual dos profissionais. Nesta entrevista, Roberto Ramos Sánchez, Manager DC Facilities & Process da Cirion, destaca como a evolução das melhores práticas de gestão e a padronização dos processos trouxeram maior segurança, eficiência e resiliência para a infraestrutura.
"No início do século, a gestão de data centers enfrentava desafios para operar infraestruturas de maneira segura, com topologias que não eram mantidas de forma concorrente e pontos de risco não identificados. A falta de treinamento adequado para as equipes e a ausência de planos claros para situações críticas dificultavam a capacidade de recuperação em caso de desastres, o que poderia resultar em tempos de inatividade prolongados e perdas significativas", avalia Roberto.
Com o passar do tempo, a operação dos data centers evoluiu significativamente, impulsionada por tecnologias como DCIM e ferramentas avançadas de gestão de ativos. Essas soluções permitiram monitoramento em tempo real, otimização de recursos e maior previsibilidade na administração da infraestrutura, reduzindo riscos e melhorando a eficiência operacional.
"As ferramentas de gestão de ativos possibilitam um controle detalhado e atualizado dos inventários, facilitando a administração do ciclo de vida dos equipamentos críticos e a identificação de recursos subutilizados ou em risco de falha, entre outros aspectos. Da mesma forma, o DCIM emergiu como uma tecnologia essencial, permitindo não apenas a monitorização em tempo real de todos os parâmetros relevantes da infraestrutura, mas também fornecendo visibilidade sobre o comportamento dos sistemas ao longo do tempo, facilitando a tomada de decisões estratégicas", afirma Roberto.
Outro ponto abordado na entrevista é a formação de talento e atuação de profissionais em data centers. Os avanços em automação e inteligência artificial diminuíram a necessidade de intervenção humana direta, transformando a função dos operadores. Hoje, esses profissionais atuam de forma mais estratégica, focando na gestão de custos, eficiência energética e suporte às necessidades específicas de TI das empresas.